Faça de si meu criado, e pague-me por isso!
- Sérgio Pereira
- há 2 dias
- 3 min de leitura

Há uma transformação silenciosa — e perigosamente normalizada — a acontecer no nosso quotidiano. Uma transformação que, sob o disfarce da modernidade, da eficiência e da inovação tecnológica, empurra o cliente para um papel cada vez mais estranho: o de trabalhador não remunerado que, paradoxalmente, continua a pagar — e muitas vezes mais — por serviços progressivamente piores.
O lema implícito parece ser este: faça você mesmo… e pague por isso.
-Quando o cliente passou a ser o empregado
Durante décadas, a relação entre empresas e clientes era clara. O cliente pagava; a empresa prestava o serviço através de trabalhadores remunerados. Havia empregos, havia contacto humano, havia responsabilidade.
Hoje, essa lógica está a ser invertida.
Nas bombas de gasolina, deixámos de ter funcionários que abasteciam, limpavam vidros ou ajudavam pessoas idosas. Agora somos nós que fazemos tudo — operar a bomba, lidar com máquinas de pagamento, resolver erros — enquanto o preço do combustível não diminui.
No fast food, o balcão humano foi substituído por quiosques digitais. O cliente faz o pedido, personaliza, paga, confirma, resolve falhas do sistema… e depois ainda é chamado por um ecrã. Menos funcionários, mais tarefas para o cliente, preços mais altos.
Em muitos restaurantes, surgem robôs a circular entre mesas, não para melhorar a experiência, mas para substituir trabalhadores. Em centros comerciais, tornou-se “normal” que os clientes arrumem os próprios tabuleiros, limpem a mesa e façam o trabalho que antes pertencia a funcionários pagos — tudo em nome de uma suposta consciência cívica que, na prática, apenas serve para cortar empregos.
-Outros exemplos do mesmo fenómeno
Este modelo repete-se em múltiplos sectores:
·Supermercados com caixas de self-service, onde o cliente regista produtos, pesa frutas, resolve erros de leitura e ainda é tratado como suspeito em caso de falha.
·Bancos, que fecharam balcões e empurraram clientes — muitos deles idosos — para aplicações, linhas automáticas e formulários digitais.
·Companhias aéreas, onde o passageiro faz o check-in, imprime cartões, etiqueta bagagens e aceita pagar extras por serviços que antes estavam incluídos.
·Serviços públicos e privados, cada vez mais inacessíveis sem competências digitais, excluindo uma parte significativa da população.
·Hotéis, onde o check-in automático substitui recepcionistas, reduzindo o contacto humano e a qualidade do acolhimento.
Em todos estes casos, o padrão é o mesmo: menos trabalhadores, mais tarefas para o cliente, menos qualidade no serviço.
-O desemprego como efeito colateral — ou objetivo?
A automatização não é neutra. Cada quiosque, cada robô, cada sistema “self-service” representa, na maioria dos casos, menos um posto de trabalho.
O discurso dominante fala em progresso e inevitabilidade tecnológica, mas raramente aborda o custo social: desemprego, precariedade, perda de dignidade profissional e erosão da classe média.
As gerações mais novas, por terem crescido já neste modelo, muitas vezes nem chegam a conhecer a alternativa. Para elas, é “normal” não haver empregados, não haver balcões, não haver atendimento humano. O que foi conquistado ao longo de décadas de lutas laborais desaparece sem alarme — como se nunca tivesse existido.
-O empobrecimento da vida social
Para além do impacto económico, há um prejuízo social profundo.
Menos interações humanas significam cidades mais frias, relações mais impessoais, maior isolamento. O simples acto de ser atendido por alguém — trocar palavras, receber ajuda, sentir-se reconhecido — está a desaparecer.
Transformar tudo em processos automáticos reduz as pessoas a utilizadores, códigos, números. E transforma o cliente em cúmplice involuntário de um sistema que se alimenta da sua própria substituição enquanto trabalhador.
-Eficiência para quem?
A pergunta essencial é esta: se o cliente trabalha mais, se há menos empregados e se a qualidade do serviço diminui… quem beneficia realmente?
Certamente não o cliente.
Certamente não o trabalhador despedido.
O benefício concentra-se quase exclusivamente em grandes empresas e acionistas, enquanto a sociedade paga a fatura sob a forma de desemprego, desumanização e desigualdade crescente.
-Dizer não à normalização
Não se trata de rejeitar a tecnologia. Trata-se de recusar a sua utilização como instrumento de exploração disfarçada.
Quando somos convidados a fazer o trabalho dos outros sem remuneração, enquanto pagamos o mesmo ou mais, algo está profundamente errado.
Aceitar tudo isto como “o futuro” é abdicar de direitos, de empregos e de humanidade.
Talvez esteja na hora de perguntar, com alguma ironia e muita lucidez:
Se tenho de ser seu criado… porque é que ainda tenho que pagar?
Texto e Ilustração por Sérgio Pereira




Arrumar tabuleiros em qualquer área de restauração, significa ser cúmplice da destruição de empregos. Infelizmente outros serviços estão de tal forma automatizados que, parecendo não haver alternativa, temos que os usar. O lema deles é "Faça de si meu criado, e ainda me pague! O nosso lema é "...Pela Cultura Integral do Indivíduo", que significa também valorizar a humanização nas relações prestador/cliente.